Prefácio
A resenha foi publicada originalmente em 11 de fevereiro de 2003. Naquela ocasião eu ainda cursava Direito na Universidade Estadual de Maringá, morava sozinho ou em república e, com o propósito de substituir uma máquina de escrever, contava apenas com um laptop Epson 486 com 4MB de RAM, apelidado de Tamagoshi, que rodava MS-DOS 6.22, Windows 3.1 e Word 6.0, sem acesso à Internet.
É interessante lembrar como estava a situação do mercado na época em que a obra foi escrita (1998). A Microsoft estava começando a dominar um mercado em que tinha entrado tardiamente, a Internet. Hoje isso tem sido relativizado, com o advento do Google, do browser Firefox, o desenvolvimento de interfaces amigáveis ao usuário no mundo GNU/Linux, que alavancou sua utilização além dos servidores, e até o ressurgimento da Apple, que quase desapareceu em meados da década passada. Deve-se notar inclusive que as últimas versões do sistema operacional do Macintosh, MAC OS X, são também baseadas em Unix (BSD).
Enfim, lembrei dessa resenha após ter lido uma notícia via feed da Folha de S. Paulo, intitulada “Google diz que negócio Microsoft-Yahoo! põe em risco a abertura da internet“. Embora o mercado da Internet tenha se diversificado e esse alegado domínio seja algo bem improvável, não é impossível e há sim grande probabilidade de que a empresa situada na região metropolitana de Seattle faça alguma tentativa nesse sentido. Mais do que um assalto planetário, há quem afirme que a política comercial dessa corporação é análoga à tática do tráfico de drogas.
Comentários a O assalto planetário: a face oculta da Microsoft.
Dalton Scavassa
www.daltonsc.hpg.com.br
11 de fevereiro de 2003.
Roberto di Cosmo é doutor pela Universidade de Pisa, Itália, docente e pesquisador de Informática da Escola Normal Superior de Paris, França. Dominique Nora é repórter do semanário francês Le Nouvel Observateur e autora de vários livros, entre eles Os conquistadores do ciberespaço (Lisboa: Terramar, 1996).
Essa obra (O assalto planetário), uma entrevista, descreve minuciosamente e de forma extremamente didática como a Microsoft vem ambicionando — e a meu ver já está na iminência de — controlar totalmente todas as formas de transmissão e de tratamento da informação. Todas as áreas, como a educação e as transações bancárias, nos atuais e nos futuros meios de comunicação social, bem como a intimidade da vida privada, podem estar sujeitos à gigante de Seatlle.
Di Cosmo denuncia: “Hoje em dia a expressão ‘sociedade da informação’ não é um termo vão. É difícil encontrar um bem mais importante que a informação, serviços mais estratégicos do que os que dizem respeito à sua criação, transmissão e manipulação. Se uma única empresa – neste caso a Microsoft – conseguir, como ambiciona, alcançar o monopólio quase total da cadeia mundial da informação e das comunicações, ela passará a representar um perigo para a democracia” (p. 12, grifo nosso).
O Big Brother do romance 1984, de George Orwell, não é nada relacionado com o que estamos sujeitos diante de uma única empresa controlando toda a cadeia da informação. Naquela ficção os indivíduos sabiam que estavam sendo espiados, podendo se precaver e se dissimular diante das câmeras de vídeo. Isto não seria possível, segundo o autor, face às tecnologias atuais que regem o cotidiano do “mundo informático”. Hoje utilizamos estas tecnologias com toda a confiança ao utilizarmos o correio eletrônico, o telefone celular, ao redigirmos textos, ao pagarmos nossas contas e, enfim, ao consumir. As empresas também não estariam de fora, já que “confiam todos os seus segredos estratégicos às redes informáticas”. O aviso: “Ora é tecnicamente possível conservar vestígios de todas estas informações sem que ninguém saiba e sem recorrer a câmaras bem visíveis. [...] Estes dados condicionam muito mais nossa vida privada do que o simples facto de nos espiarem em nossa casa, com o auxílio de uma câmara facilmente localizável… Sobretudo se estas informações caírem nas mãos de uma única empresa” (p. 14).
“Se a Microsoft conseguir de facto dominar simultaneamente os sistemas operativos [operacionais] dos computadores pessoais, as redes de comunicação, os programas de navegação e a inteligência dos servidores de informação que constituem a rede Internet, o grupo [...] teria de facto o poder de decidir, de uma forma dissimulada, quem teria acesso à informação” (p. 15).
É fato, segundo o autor, que a Internet se desenvolveu graças a linguagens e protocolos abertos, como HTML, TCP/IP, o Berkeley Internet Name Daemon e o Perl. Esta base de modelos abertos e públicos é o que permite que os usuários possam trocar livremente informações entre todas as plataformas, seja “Wintel” (Windows/Intel), Macintosh, Sun, HP, IBM, NeXT, Atari ou Amiga.
A Microsoft domina os sistemas operacionais com o Windows e já desbancou o mercado de browsers com o Internet Explorer. Se (ou quando) conseguir dominar também o mercado de servidores com o seu IIS (Internet Information Server), atualmente representado em mais de 50% pelo Apache, programa aberto, o mundo da informação estará em situação complicada.
Dominando os sistemas operacionais, os navegadores e os servidores, a Microsoft poderá facilmente impedir a compatibilidade entre plataformas e que concorrentes façam produtos compatíveis com os dela. E ainda: ninguém poderia entender como estas máquinas se comunicariam entre si, ou seja, a liberdade e a vida privada estaria em gr
ave perigo. “[...] numa economia mundializada e ultracompetitiva, seu perfil de consumo vale ouro. Quem souber quais são as suas tendências culturais, as cidades que gostaria de visitar, os produtos que lhe interessam, os brinquedos preferidos dos seus filhos, etc., poderá propor-lhe os bens e os serviços que correspondem exactamente aos seus gostos” (p. 16). Hoje isto já é de certa forma feito, através dos cookies, mas esta prática, segundo o autor, foi identificada e denunciada justamente pelo fato de se basearem, por enquanto, em protocolos abertos. Se as comunicações estiverem “codificadas no sigilo comercial de uma linguagem específica, ninguém poderá saber o que seu próprio microcomputador ‘diz’ à rede” (p. 17). As empresas que utilizam estas técnicas dizem que “prever nossos desejos” é para nosso próprio bem. “Mas será que queremos abdicar do nosso livre arbítrio em nome deste ‘angelismo’ comercial?” (loc. cit).
“Bill Gates sabe perfeitamente, e essa é a sua maior angústia, que o microcomputador não será eternamente a única porta de acesso à Internet. Os terminais de acesso vão diversificar-se. A Microsoft tenta, pois, empurrar a sua solução e os seus modelos para todos os nichos emergentes: o Windows CE tornou-se já o sistema operativo vulgar das agendas electrónicas, apesar de, como é habitual, os melhores produtos neste domínio (como o PalmPilot ou o Psion) não o utilizarem” (p. 19). A televisão interativa, os consoles de videogame, os telefones celulares, os computadores de automóvel, tudo aquilo em que puder, a Microsoft desejará estar presente com seus softwares, a fim de dominar todo o mercado da informação.
Aliás, Bill Gates (pessoa física, não a Microsoft), aliado a um bem-sucedido empresário americano da telefonia móvel, Craig McCraw, fundou a Teledesic, empresa que pretende [o livro é de 1998] lançar 288 satélites, que poderia fazer concorrência a qualquer rede terrestre clássica de telecomunicações (p. 21). Tudo indica que serão utilizados neste projeto os softwares Microsoft.
Declara ainda o pesquisador que o ramo de software é mais importante estrategicamente do que o de hardware, já que “é muito mais fácil clonar um chip do que um programa complexo. [...] Aliás, há muito tempo que a AMD, a Cyrix e a IBM produzem chips que fazem funcionar o Windows tão bem como os da Intel, e por muito menos dinheiro” (p. 13). Ora, eu mesmo estou diante de um laptop equipado com microprocessador da extinta Cyrix, um 486 SLC, 50 MHz, e já tive ainda um antigo desktop equipado com Cyrix 486 DLC 40 MHz. Nunca tive qualquer problema por não estar usando um PC com “Intel Inside”. Ou seja, o monopólio da Intel não é tão importante quanto o da Microsoft. “A Microsoft e a Intel estão aliás muito ligadas. A Intel produz chips cada vez mais poderosos para motorizar softwares Microsoft cada vez mais pesados, que por sua vez nos obrigam a mudar de computador cada vez mais depressa… e consequentemente a deixar cada vez mais dinheiro nas caixas registradoras destes dois cúmplices” (loc. cit.).
O autor desmistifica a história da Microsoft. Aliás, há um filme interessante, relativamente recente, sobre o início da Microsoft e da Apple.
A linguagem Basic — John Kemeny e Thomas Kurtz, em 1964, é que criaram a linguagem Basic. Bill Gates e Paul Allen somente criaram um interpretador daquela linguagem para o microcomputador Altair.
O IBM PC e o MS-DOS — Os computadores pessoais, no final da década de 1970, começaram a ser utilizados na contabilidade das pequenas empresas, com o advento do programa Visicalc. Até então eram coisa de apaixonados, nada que ameaçasse a homogenia da IBM e seus sistemas enormes acessíveis somente aos governos e grandes instituições ancárias. Com os Apple e Commodore começando a entrar no comércio e nas pequenas empresas, a IBM precisava apresentar um produto dela para evitar perder seu quase monopólio, mesmo não acreditando verdadeiramente no computador pessoal. Prova disso é que nas grandes máquinas todas as peças eram fabricadas na própria empresa, enquanto nos primeiros IBM PCs, “só o
teclado é que era da IBM… O resto fora descoberto no mercado: a Intel fornecera o processador 8008, e a Microsoft, uma empresa criada em 1975, fora solicitada para fornecer o sistema operativo” (p. 23).
Bill Gates e Paul Allen não trabalhavam com sistemas operacionais naquela época, mas se aproveitaram da situação – a IBM não conhecia bem este nicho de mercado – e ofereceram um sistema que compraram (e não inventaram) por 50 mil dólares da pequena Seattle Computer: o Q-DOS, que significava Quick (rápido) and Dirty (sujo) Operating System, produto de total “qualidade”, foi rebatizado de MS-DOS (Microsoft Disk Operating System) e oferecido à IBM, que o inseriu em seu também quick and dirty PC. Entretanto, pasmem, até hoje utilizamos esta plataforma!
Evidentemente, a qualidade do IBM PC, totalmente improvisado, “era muito inferior à do Apple II, mas o poder comercial e o serviço da IBM determinaram a diferença” (p. 24).
A IBM nunca levou o PC a sério: “o mamute não se deu ao trabalho de comprar o MS-DOS nem de assegurar-lhe a exclusividade. Resultado: a Microsoft conseguiu vender depois o MS-DOS – e mais tarde o seu sucessor Windows – a todos os concorrentes da ‘Big Blue’. [...] Ninguém adivinhava que, com a estandardização [padronização] dos produtos Intel e Microsoft e o aparecimento de clonadores asiáticos, todos os lucros – e o poder – da microinformática se concentrariam nos chips e nos sistemas operativos. Você sabe o que se seguiu” (p. 24). Ninguém adivinhava porque na época quem dominava o mercado eram os próprios construtores das máquinas, o que se inverteu depois.
“[...] Os fundadores da Microsoft eram, desde o início, empresários pragmáticos, mais do que visionários da tecnologia. Souberam muito bem identificar as oportunidades e ocupar o lugar antes dos outros, ainda que com produtos medíocres” (p. 24). Isto explica o êxito extraordinário daquela empresa: a astúcia, não a qualidade de seus programas. Hoje, sem saber o que fazer com tanto dinheiro, “a empresa adquire maciçamente as suas próprias acções” (loc. cit). Um exemplo é a escalada da Internet, que foi totalmente ignorada a início por Gates. “Em 1995, bastaram alguns meses a este mastodonte de vinte cinco mil empregados para dar a volta e fazer da Internet o seu eixo de desenvolvimento privilegiado” (p. 25).
Enfim, isto é só o começo de uma discussão empolgante. Di Cosmo comenta muitos outros aspectos do mercado da informática, e a relação com o monopólio do, segundo ele, “mastodonte” de Seattle, cujos produtos, além de tudo são de má qualidade.
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O pesquisador ao final (p. 116) dá três opções alternativas, de acordo com o perfil do consumidor:
A administração pública poderia utilizar o conhecimento disponível nas universidades para conseguir opções econômicas e confiáveis baseadas em Linux. Poderia ainda ressussitar máquinas antigas utilizando o sistema NewDeal, ao invés de dispender com máquinas excessivamente onerosas exigidas pelo Windows.
Citando o caso da IBM, que resolveu adotar e promover o servidor Apache, ao invés de render-se ao WindowsNT, Roberto di Cosmo afirma que “não é certo que o Linux enterre um dia o Windows. Mas talvez o modelo de criação e divulgação do software livre seja o do futuro… Porque não existe nenhuma empresa suficientemente rica, nem mesmo a Microsoft, que possa lutar contra os talentos conjugados dos melhores programadores do mundo. Sobretudo se o fruto dos seus trabalhos for depois endossado por pesos-pesados da indústria. Enfim, O assalto planetário: a face oculta da microsoft é um livro gostoso de ler, que nos dá a sensação de que estamos ameaçados mas ao mesmo tempo nos dá a esperança de que, se nos precavermos e nos reunirmos, poderemos escapar dos golpes monopolistas do mastodonte de Seattle.
Esperamos que o poder público se alerte, como o Ministério Público e o CADE, para que no nosso país tomemos alguma atitude para não ficarmos totalmente dependentes de uma única empresa estrangeira e monopolista. A sociedade civil também poderia se mobilizar, através das organizações não governamentais. Referência bibliográfica
DI COSMO, Roberto; NORA, Dominique. O assalto planetário: a face oculta da Microsoft. Trad. Maria Filomena Duarte. Lisboa: Terramar, 1999. Título original: Le hold-up planétaire: la face cachée de Microsoft. Paris: Calmann-Lévy, 1998.

isto é uma grande besteira