Aderimos à política estimulada pela Free Software Foundation no sentido de evitar o uso do vocábulo “pirataria” no amplo sentido empregado atualmente pela mídia, por exemplo, ao se referir a cópias não autorizadas. Afinal, embora seja tida como anti-ética e em diversas situações seja tipificada como crime
, essa prática não pode ser comparada com a pirataria
que é conhecida desde os primórdios da navegação, aterrorizando embarcações em todo o mundo, algo que até hoje preocupa o comércio internacional
.
Isto sim é pirataria: veja artigo do How Stuff Works. Veja também recente notícia sobre piratas que agem atualmente nos sete mares.
O Projeto GNU mantém uma página intitulada “Palavras e frases confusas que merecem ser evitadas” (tradução livre nossa). Abaixo, a tradução do trecho em discussão.
Editores freqüentemente se referem às cópias proibidas como “pirataria”. Deste modo, eles querem dizer que produzir cópias ilegais é eticamente equivalente a atacar navios no alto mar, seqüestrar e assassinar seus tripulantes.
Se você não acredita que cópia ilegal é o mesmo que seqüestrar e assassinar, você talvez prefira não usar a palavra “pirataria” para descrevê-la. Ao invés disso, termos neutros como “cópia proibida” ou “cópia não autorizada” estão disponíveis para serem usados. Alguns de nós podem até preferir usar um termo positivo como “compartilhar informação com seu vizinho”.

“Free as in freedom“
Significados tão diferentes merecem o uso de termos diferentes. Então, pegando carona nesse assunto, lembramos ainda de outra situação lingüística que merece nossa atenção por também envolver ideologia. Talvez mais gritante ainda do que o termo pirataria, há muito tempo somos veementemente contra o uso pelos falantes nativos da língua portuguesa do confuso termo inglês “free“, especialmente em conjunto com idéias relacionadas a software.
Acontece que, enquanto a língua inglesa possui uma única palavra com a responsabilidade de englobar dois sentidos distintos (“free beer”: cerveja
grátis, “free speech”: liberdade de expressão
), a língua portuguesa
, tal qual as línguas latinas
em geral, tem a felicidade de contar com as palavras distintas: livre (do latim liberu) e grátis (gratis). Aliás, uma coisa não implica na outra. Por que então tantas pessoas, inclusive alguns professores, insistem em enunciar frases infelizes, equivocadamente misturando esse vocábulo inglês? A rigor, não estão totalmente erradas, porém poderiam facilmente ser mais precisas se fosse usado o vernáculo ao invés de tentar o anglicismo equivocado.
Um exemplo comum: “O programa X é free“. Ouvindo isso sabemos que o software é distribuído gratuitamente, mas como saber, sem conhecer o programa em questão, se sua licença é proprietária ou livre? Software livre é questão de liberdade, não de preço.
A verdade é que leigos podemos até perdoar pela ignorância do assunto. A maioria das pessoas utiliza software livre e nem faz idéia disso. Porém, quem é profissional da tecnologia da informação
deveria ter a obrigação de se ater aos detalhes técnicos (vide o movimento open source) e ideológicos (vide o movimento free software). O surgimento do “open source movement” (código-fonte aberto), à margem do “free software movement” (software livre), foi parcialmente causado justamente em virtude da confusão do termo inglês. Pode-se dizer que, na prática, ambos os movimentos são semelhantes, mas o movimento do software livre é mais abrangente, pois discute questões filosóficas bem além da abertura do código-fonte
. O movimento do código aberto, originado do primeiro, já é mais pragmático e por isso vem tendo mais destaque nas corporações. Projetos de software com o código-fonte aberto, independentemente de dizer que isso seja software livre ou que seja “opensource”, freqüentemente implicam em melhor qualidade
. É algo que até Redmond tem feito, embora timidamente.
Se você já cometeu esse deslize, agora que tem o conhecimento dessa particularidade, ajude a evitar a ambigüidade: aproveite a liberdade da língua portuguesa.
Este assunto também está contido no texto supracitado do projeto GNU, originalmente escrito por Richard Stallman e também publicado em seu livro Free software, free society: selected essays of Richard M. Stallman.

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